quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O terrível fato de eu ser eu mesma

Ele foi entrando quieto.
Eu observei cada passo seu do balcão.
Deu um sorriso falso e educado para a garçonete, sentou-se numa mesa no final do café-bar.
Pôs a bolsa na mesa, tirou um pequeno caderno e começou a escrever.
Não resisti, larguei meu posto no balcão e fui até lá servi-lo.
- Você sempre usa esses lugares como fonte de inspiração? - Enchi sua xícara com café.
- Não pedi café.
- Tinha que pedir algo de qualquer forma.
- Tudo bem! - Ele deu um meio sorriso amarelo.
Será que eu progredia?
- Não respondeu minha pergunta. - Testei seu gosto, em como ouvir mulheres.
- Não vim buscar inspiração, não acredito nisso.
Ia ser mais difícil do que eu pensava.
- E como escreve?
- Não é uma fórmula matemática, não tem um jeito certo ou errado.
- E  o que faz aqui? Solitário no canto de um café-bar meia boca?
Ele sorriu.
- Está tentando algo comigo?
- Se você estivesse buscando inspiração.
- Eu posso usar você. - Ele sorriu novamente.
Fez uma pequena pausa eu ia falar. Ele não permitiu.
- Uma menina infeliz, mais inteligênte do que aparenta. Trabalha nun café-bar, sabe lá Deus o que é isso. Infeliz, qualquer olhos podem notar isso. Mas nenhum desses mesmos olhos conseguem enxergar nada do que está escondido por detrás de sua beleza, como uma mistura de italiana e india. linda!
Ele parou defalar. Deu um sorriso escondido, daqueles que damos quando falamos algo e esperamos que a outra pessoa sorria com comentário.
Eu não sorri! Queria, mas não sorri. Estava distraida pensando que por pouco eu tive chances de ter um homem maravilhoso e ter perdido essa mesma chance, na mesma hora.
Fiquei triste por não poder tê-lo. Lhe dei um olhar que demonstrava tudo que eu sentia. Não sei se ele entendeu e penso nisso até hoje.

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