quinta-feira, 29 de março de 2012

Na terceira

No terceiro encontro, já tinhamos passado da fase da conversa virtual, telefonemas e mensalidades, horas a fio  em conversas bobas, pré-preliminares.
Eu ainda me ria de tudo me você.
Já passado, também, os beijos comportados, as mãos respeitosas, preliminares, feito!
Ríamos os dois.
Seu sorriso de fumante, na boca desenhada pela barba densa, um olhar pequeno, sonolento.
Eu olhava, mas não deveria, apreciava o que não podia, pegava o que não me pertencia.
Beijei o imbejável, escutei o inádivel, sussurrei...
Descobri o prazer em mim.
Fumamos juntos.
Você queria me contar sua semana.
Eu queria ouvir.
Acabados os cigarros, você foi comprar mais e eu voltei, sozinha.



Agora aquela é sua esquina. Dos beijos, cigarros, piadas, olhadas e esquinas.
Agora, ela é só sua e eu continuo a voltar sozinha.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Na segunda

Na segunda vez que nos vimos, eu olhava apreensiva para aquela esquina, medo de não vê-lo, eu acho.
Lá estava você, com o costumeiro cigarro em sua boca pequena, hoje meio avermelhada. De uma mordida talvez.
Você assegurou que estar solteiro.
Dessa vez o abraço foi mais apertado, depois de tantas horas no telefone, a intimidade cresceu.
Já no seu quarto, não havia mais espaço para disfarces e contratempos.
Minhas mãos em suas pernas, suas mãos em minha cintura, talvez um pouco mais abaixo. A essa altura já não se sabia onde estavam nossas bocas, percorriam rápido, boca, pescoço, nuca. Em alguns lugares a boca se demorava mais; lugares sem nome nem endereço.
Hoje quem deu a mordida fui eu. Vi indícios de outra, mas só estávamos os dois ali, naquela hora, nada mais importava, eu já nem mais pensava. Não havia mais nada que não fosse você, eu e sua cama.

Três dias, uma esquina e nunca mais

Olho aquela esquina que tantas vezes nos encontrou.
Da primeira vez eu não te conhecia, fui andando pela rua, olhando, procurando e lá estava você, cigarro entre os dedos, encostado de qualquer jeito no poste; all star e blusa pólo, uma bermuda jeans para o calor.
Você me reconheceu daquela foto que lhe mandei, largou do poste, deu uma última tragada e me olhou.
Atravessei a rua, livro em punho, “Memórias de minhas putas tristes”, cabelo solto, franja no olho e o vestido negro para a ocasião.
Abraço, beijos constrangidos e desajeitados na bochecha.
Você me daria ótimas palavras num poema e me roubaria todas elas num beijo dessa boca que me levava dos pensamentos. Tão pequena e carnuda. Eu precisava protegê-la com meus beijos; e manter os olhos longe de você.
No seu quarto, em cima da sua cama, éramos olhares desconhecidos se conhecendo em esbarrões propositais.
Desfilo por seu quarto fingindo mexer em seus livros estocados em desarmonia na estante. Você repara, conversa, me questiona sobre minhas opiniões,crenças, costumes e conhecimentos.
Sai para fumar, volta na porta para uma olhada, eu peço um trago. Você observa meu modo de levar a fumaça para os pulmões e soltá-la enquanto te olho e devolvo o cigarro sujo do meu batom vermelho; você nota e não se importa, leva de volta para a boca e sai para se desfazer dele e voltar para mim.
Nesse jogo de timidez, olhares, sorrisos e pequenas manias.