terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Adoração do avesso


A campainha foi tocada duas vezes.
Era Marisa minha ex-mulher.
- Oi! – Cumprimentei, prometendo-me ser educado.
- Ricardo... – Ela suspirou meu nome.
Ficamos ali a nos olhar, não havia palavras. Seu olhar era tresloucado, suspirava palavras inteligíveis, das quais eu conhecia o significado.
- Eu também odiava aquela droga de vida! – Marisa exasperou entre seus suspiros. – Eu carregava nossa vida nas costas e você nada.
- Que diabos quer dizer com isso?
- Te odeio! – Marisa gritou até a voz falhar.
Ia falar, não pude.
- Fez com que eu lhe pertencesse, com cada parte, até do que não me possuía. Você é um imprestável, nunca foi capaz de terminar o que começava e o que fazia era tão inútil quanto você! – Marisa olhou-me com um olhar de ódio e fúria, um olhar pausado, pesado nas palavras que ainda escondia. Respirou fundo – Ricardo, você é o fundo do poço da vida de alguém!
- Se sou o que diz, o que ainda quer de mim? O que quer de mim?
Marisa agarrou-me os braços.
- Quero dizer que ainda sou tua.


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