terça-feira, 27 de dezembro de 2011

PELAS TABELAS


Despertei de mais um sonho e com raiva da realidade, fui tomar uma chuveirada; lavei-me da cabeça aos pés, rezando para que o ralo engolisse as vivas lembranças de alguém que já se fora, lembranças que para ele já deveriam estar mais que mortas.
Saí trôpega pela rua, pensando em me embebedar em algum canto – fazia tempo que eu não bebia, mas este dia estava insustentável e aquele sonho terrível e maravilhoso... Sempre odiei sonhos por nunca tê-los compreendido, saber de onde vêem e se realmente possuem algum significado. – Mas era cedo para beber e eu tinha trabalho a fazer; trabalho comunitário. Eu sempre tive prazer nisso, mas não hoje.
Meu trabalho era ajudar uma psicóloga a cuidar de meninas de áreas carentes, nós conversávamos e as ajudávamos com o que precisassem.
- Mônica, - Karine, uma das meninas veio até mim – estou com problemas.
“Quem não está?” – Pensei e acenei com a cabeça.
- Tem uma pessoa que eu gosto – ela continuou – mas estou com medo de arriscar. Da última vez que me arrisquei, acabei sozinha, magoada, grávida e abortando uma criança que quase me fez morrer.
- Eu sempre penso que se você se arriscar e não der certo, você se magoa; se não se arriscar fica pensando como teria sido.
Eu não estava ajudando em nada, só estava expondo minha confusão. Havia um grande sinal de interrogação no rosto de Karine.
- Arrisque somente se puder se controlar, não se entregue de todo e nunca aceite ameaças do tipo: “Se você não transar comigo, vamos terminar.”
Karine sorriu, me abraçou e se foi satisfeita.
No final do dia, eu gostaria de chamar todas aquelas meninas para beber comigo e esquecer toda aquela bobagem dita por mim e pela Dr. Ângela – a psicóloga.
Fui sozinha.
Bebi, bebi, só me senti mais trôpega do que de mais cedo, no entanto não consegui a inconsciência causada pelo álcool.
Ao longe vi dois e me vi desesperada, ao sair do bar encontrei meu sonho caminhando pela rua;
Por fim averiguei que só havia um Felipe, alto, cabelo castanho claro e olhos acinzentados, de longe um como qualquer outro, de perto o único que eu queria.
- Ótimo – falei rindo – tudo que eu precisava hoje era te encontrar.
Ele sorriu seu sorriso.
- É bom te ver – ele me abraçou – faz tempo.
- Só por que você quer. – Deixei escapar quase que de propósito.
- Fazer o quê... – Ele voltou a sorrir.
Aquele sorriso doce, irônico, cauto, que eu adorava, porém não quando significava que era mais cauto e por mim.
- Bom – ele continuou – foi bom te ver, mas tenho que ir. – Felipe me abraçou, sorriu e se foi.
Fiquei observando-o até não poder mais vê-lo, antes disso, ele se encontrou com um grupo e foi alegre festejar uma coisa qualquer.
Senti meu rosto se fechar numa careta triste. Voltei para o bar.

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